Revolução na Nutrição: O fim da era do alto carboidrato para prevenção e controle do diabetes tipo 2

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Revolução na Nutrição: O fim da era do alto carboidrato para prevenção e controle do diabetes tipo 2

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Em 1977, o Comitê sobre Nutrição e Necessidades Humanas do Senado Americano recomendou que as pessoas aumentassem sua ingestão de carboidratos para 55 ou 60% do valor calórico total, enquanto reduzissem o consumo de gordura de 40 para 30% das calorias diárias. Os objetivos destas recomendações eram reduzir tanto os custos com a saúde pública quanto maximizar a qualidade de vida dos americanos – conforme afirmou George McGovern, presidente do comitê.

Previu-se que a redução nos custos resultaria da possível redução na incidência de doença cardíaca, câncer e derrame, bem como de outras doenças fatais. Apesar das controvérsias de que as recomendações baseavam-se em evidências científicas fracas, o Departamento Americano de Agricultura (USDA) criou em 1980 uma pirâmide alimentar que representava o número ótimo de porções a serem comidas a cada dia, de cada um dos grupos alimentares básicos.

Os carboidratos foram postos na base da pirâmide (compondo a maior parte da ingestão calórica, de 6 a 11 porções por dia), e as gorduras foram postas na ponta da pirâmide para mostrar que deveriam ser “usadas com moderação” .

Infelizmente, os resultados destas recomendações resultaram no oposto do que o USDA esperava.

O que foi adequadamente descrito como um “experimento nutricional nacional” contribuiu, como agora sabemos, para o aumento da prevalência da obesidade. E, contrário aos objetivos principais das recomendações, a prevalência do diabetes tipo 2 – e da doença cardiovascular – aumetaram significativamente.

Por que isso aconteceu ? Fisiologicamente, um aumento na ingestão de carboidratos resulta em uma resposta insulínica, que através da sua ação promotora de armazenamento de gorduras, aumenta a obesidade. E, como já foi mostrado, o acúmulo de gordura na barriga (gordura visceral) está associado com a inflamação crônica que é diretamente ligada ao diabetes tipo 2 e infartos do miocárdio.

O problema é igualmente ruim para pessoas que já tem diabetes tipo 2. Sabemos hoje que aumentar a carga de carboidratos na dieta de um diabético aumenta o que é chamado glicotoxicidade e consequentemente aumenta a resistência à insulina, nível de triglicérides e reduz o benéfico HDL.

Na virada do século XX (muito antes das recomendações do USDA, representadas pela pirâmide alimentar), o que hoje conhecemos como diabetes tipo 2 era predominantemente definido “doença de intolerância ao carboidrato”, e era tratada principalmente com a redução da ingestão destes. A restrição de carboidratos era particularmente bem-sucedida no tratamento do diabetes antes da descoberta da insulina.

Os doutores Elliott Joslin e Fredrik Allen, pais da ciência do diabetes, bem-sucedidamente tratavam seus pacientes diagnósticados com “diabetes gorda” (mais tarde conhecida como “diabetes tipo 2”) com uma dieta muito pobre em carboidratos. Hoje, a dieta de Elliott Joslin seria considerada excêntrica, como pode ser visto pela reação da comunidade médica à sua reincarnação como “dieta Atkins”.

Tal redução extrema de carboidratos, apesar de muito bem-sucedida no tratamento do diabetes tipo 2 antes da descoberta da insulina, estava de fato associada com alguns efeitos colaterais desconfortáveis, como constipação, dor de cabeça, hálito ruim e cãimbras. Mas apesar de a quantidade recomendada de ingestão de carboidratos ter sido significativamente relaxada após a descoberta da insulina em 1922, ela nunca excedeu 40% das calorias diárias – uma quantidade que demonstradamente reduz a glicemia e os triglicérides.

Então, foi um absurdo que quando as recomendações do USDA foram publicadas, diversas sociedades médicas recomendaram aumentar os carboidratos e reduzir as gorduras para pacientes com diabetes.

Desde 2003, muitos ensaios clínicos confirmaram que reduzir carboidratos ainda é superior a reduzir a gordura para diminuir o peso corporal e melhorar o controle glicêmico. Também já foi mostrado que reduzir os carboidratos para pacientes com diabetes tipo 2 aumenta a sua sensibilidade à própria insulina; reduz a gordura abdominal e triglicérides; e aumenta o bom colesterol (HDL).

Recentemente, uma análise de diversos estudos (meta-análise) mostrou que reduzir a carga de carboidratos (a quantidade) e o índice glicêmico (o efeito de alimentos específicos, contendo carboidratos, sobre a glicemia) estava associado com risco reduzido de desenvolver diabetes tipo 2. Após a redução do peso, mostrou-se que manter uma dieta que reduza o consumo de comidas de alto índice glicêmico e seja rica em proteínas mantém melhor e por mais tempo a perda de peso, do que qualquer outra composição dietária.

As Diretrizes Joslin

Desde 2005, a Clínica Joslin tem recomendado uma redução de carboidratos para 40-45% das calorias diárias totais, e a evitar alimentos que figurem alto na tabela de índice glicêmico de carboidratos. As diretrizes de 2005 para pacientes sobrepesados e obesos com diabetes tipo 2, ou aqueles com risco de desenvolver a doença, que foram revisadas em 2011, continuam a recomendar a redução da ingestão de carboidratos para prever e tratar pacientes com diabetes tipo 2 e problemas de peso.

Recentemente, a maioria das sociedades médicas abandonaram a recomendação de alta ingestão de carboidratos e recomendaram individualização das necessidades nutricionais. Aqui no Joslin, temos prova clínica de que esta é a decisão correta. Desde 2005 temos seguido as Diretrizes Joslin em nosso programa de redução de peso.

Os 44 grupos de pacientes com diabetes tipo 2 que passaram pelo programa e seguem as diretrizes perderam juntos um total de 4500kg, melhoraram o controle do seu diabetes e reduziram significativamente a medicação.

Infelizmente, muitos profissionais de saúde e nutricionistas país afora ainda recomendam alta ingestão de carboidratos para pacientes com diabetes, uma recomendação que pode fazer mal a seus pacientes e contribuir para a obesidade e a piora do controle do diabetes – e consequentemente aumento da chance de desenvolver complicações diabéticas.

Hoje está claro que um grande erro foi feito nos anos 1970 ao recomendar-se um aumento dos carboidratos para mais de 40% das calorias diárias totais. Esta era deveria chegar ao fim se queremos seriamente reduzir as epidemias de obesidade e diabetes tipo 2.

Fonte: Paleodiário